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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Tragédia em Santa Maria completa um mês perto de apontar culpados


O incêndio foi na boate Kiss, em Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul (Foto: Germano Roratto/Agência RBS)Incêndio atingiu a boate Kiss, em Santa Maria, no dia 27 de janeiro causando 239 mortes, a maioria de jovens que participam de uma festa promovida por universitários (Foto: Germano Roratto/Agência RBS)
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio atingiu a boate Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O saldo foi de 239 mortos e centenas de feridos, alguns dos quais seguem hospitalizados. A grande maioria era formada por jovens, vítimas de uma tragédia que comoveu o Brasil e ganhou repercussão internacional. 
Um mês depois, o G1 volta a cidade de 261 mil habitantes e faz um balanço de como os moradores tentam se recuperar do trauma, detalha o inquérito policial que apura as causas e as possíveis responsabilidades sobre a tragédia, além de atualizar as informações sobre o tratamento médico dos sobreviventes.
Se por um lado a dor de familiares e amigos das vítimas ainda está longe de ser superada, já dá para notar que a tragédia de Santa Maria já deixa um legado: por todo o país, centenas de casas noturnas e estabelecimentos semelhantes foram interditadas por apresentarem riscos à segurança dos frequentadores. Autoridades discutem e adotam medidas mais rigorosas para tentar evitar que episódio semelhante jamais se repita.
Inquérito se aproxima da conclusão sem  laudos da perícia
Faltando quatro dias para o fim do prazo do inquérito policial que investiga o incêndio na boate Kiss, no diz 3 de março, a Polícia Civil ainda não recebeu do Instituto Geral de Perícias (IGP) os laudos sobre o incêndio. Os documentos são essenciais para a conclusão do inquérito, pois devem apontar as causas das mortes e as circunstâncias do incêndio.
Dois responsáveis pelas investigações, os delegados Marcelo Arigony e Sandro Meinerz estiveram em Porto Alegre na terça-feira (26) para terem acesso aos documentos. Receberam a resposta de que o IGP ainda não tem data para concluir os exames. Por isso, eles podem pedir a prorrogação do prazo para a conclusão do inquérito ou remetê-lo parcialmente à Justiça. 
“Duas perícias são fundamentais. A primeira, das necropsias, vai apontar a causa das mortes. E a outra é a do local dos fatos, pois ela vai esclarecer muitos detalhes. Toda a prova testemunhal caminha no sentido único, não há divergência no depoimento das testemunhas. O que a perícia vai fazer é dizer onde estavam os pontos de falha no local, que vão fundamentar o dolo eventual”, explica o delegado Meinerz. 
Desde o dia da tragédia, a 1º Delegacia de Polícia de Santa Maria já ouviu mais de 400 pessoas e a expectativa é de que sejam prestados cerca de 500 depoimentos até o final desta semana. Tanto a polícia e o Ministério Público não têm dúvidas de que os proprietários da boate e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que acionaram um artefato pirotécnico no palco naquela noite, assumiram o risco de matar. 
Dois proprietários da boate, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, além do vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor do grupo, Luciano Augusto Bonilha Leão, foram presos temporariamente na segunda-feira seguinte, dia 28..
Spohr chegou a ficar hospitalizado em Cruz Alta por ter sido exposto à fumaça no incêndio até o dia 5, quando foi transferido à Penitenciária Estadual de Santa Maria, onde também se encontram os outros três envolvidos. O prazo inicial da prisão temporária, de cinco dias, foi prorrogado por mais 30 no dia 1º de fevereiro e vence no dia 3 de março. A prisão temporária ainda pode ser convertida em prisão preventiva.
Cada um dos suspeitos prestou um depoimento inicial. A polícia planeja ouvi-los novamente antes de concluir o inquérito. Até o momento, segundo o titular da 1ª Delegacia de Polícia, Sandro Meinerz, e o delegado regional, Marcelo Arigony, a suspeita é de que os quatro presos tenham cometido homicídio doloso (intencional) qualificado. A tese é reforçada pelo Ministério Público.
“Estamos acompanhado o inquérito desde o início e os elementos colhidos nos permitem essa denúncia. É preciso materialidade, indícios de autoria, e apontamentos para o descaso dos acusados com a possibilidade de tal resultado (matar)”, afirma o promotor criminal Joel Dutra, um dos responsáveis pelo processo. 
Até o momento, os fatores apontados pela como causadores do incêndio pela polícia foram a espuma do revestimento acústico que cobria o teto, feita de um material inflamável, o equipamento pirotécnico usado pela banda, superlotação, falta de luz e de sinalização de emergência e uma segunda porta para evacuação. Ainda é investigada a possível parcela de culpa das autoridades municipais e estaduais, como prefeitura e Corpo de Bombeiros, que permitiram o funcionamento da boate, apesar de ela não apresentar condições.
Um dos donos da boate Kiss, o empresário Mauro Hoffmann se entrega à polícia e é preso.  (Foto: Emerson Souza/Agência RBS)Um dos donos da boate Kiss, Mauro Hoffmann
e mais três investigados seguem presos
(Foto: Emerson Souza/Agência RBS)
Os detidos foram os primeiros a serem ouvidos. Depois disso, a polícia apreendeu fotografias na casa de integrantes da Gurizada Fandangueira que, conforme Meinerz, evidenciam o uso do equipamento pirotécnico em outras apresentações do grupo, inclusive dentro da mesma boate. Até mesmo a banda de Spohr já usou show de fogos na Kiss, como mostram fotos divulgadas por uma ex-funcionária da casa.
O vocalista da banda disse à polícia que a boate estava superlotada na noite do show, e que Spohr nunca havia contestado o uso de efeito pirotécnicos. O advogado Jader Marques, que representa Kiko, pediu que fosse feita uma acareação entre os dois. Em entrevista à RBS TV quando ainda estava hospitalizado, ele afirmou que o grupo não havia pedido permissão para utilizar o recurso.
Segundo o advogado do vocalista da banda, ele não negou que tenha usado fogos no show. Porém, o equipamento usado era apropriado para locais fechados, garante. Já Hoffmann afirmou à polícia que adquiriu 50% das cotas do estabelecimento, mas não participava do gerencimento. Também em depoimento, Ângela Callegaro, irmã de Spohr, disse que “decisões e assuntos importantes” eram tomadas pelos dois sócios.
Mas a investigação não se limita aos quatro presos. Com o objetivo de apurar a responsabilidade de quem permitiu a abertura da boate, a polícia solicitou uma lista com fiscais que atuaram na prefeitura entre 2009, quando a casa noturna teve o alvará concedido, até hoje. No dia 15, foram entregues aos delegados o nome de 26 fiscais e três secretários com passagem pela Secretaria de Mobilidade Urbana de Santa Maria desde 2009.
Além dos bombeiros que realizaram o socorro das vítima na madrugada do incêndio, prestou depoimento também o tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Daniel da Silva Adriano, que assinou o primeiro alvará de funcionamento da boate Kiss. Segundo o delegado Marcos Vianna, ele afirmou que, à época da assinatura, em 2009, todas as providências para garantir a segurança dos frequentadores foram tomadas.
Peritos usam equipamento alemão para montar maquete virtual da boate Kiss (Foto: Divulgação/Polícia Civil)Interior da boate Kiss passou por diversas perícias
nesses 30 dias (Foto: Divulgação/Polícia Civil)
Na última segunda-feira (25), também foi ouvido o ex-secretário da Saúde e atual vice-prefeito da cidade, José Haidar Farret. Conforme Meinerz, ele não levou novidades à polícia. “O ouvimos porque ele atuava na Saúde, e a parte de Vigilância Sanitária tem um certa autonomia. Por isso ele teria de dar algumas explicações”, declarou.
Além dos depoimentos, foi feita uma série de perícias e reconstituições no prédio onde funcionava a boate, na Rua dos Andradas, que segue isolado. Em uma delas, um scanner foi usado para reproduzir uma maquete virtual, por meio de uma parceria com o Instituto Geral de Perícias de Brasília. O objetivo é ajudar a reconstituir o que ocorreu na noite da tragédia.

Sem os laudos do IPG e após tomar o depoimento das últimas testemunhas, nenhum deles considerado fundamental para o desfecho do caso, a polícia pode concluir uma parte do inquérito na sexta-feira (1º de março) já que a data limite, dia 3, cai em um domingo. No documento que pode ser remetido à Justiça não devem constar o novo depoimento dos suspeitos nem os laudos das perícias, que serão anexados posteriormente.

De 145 feridos no incêndio, 22 permanecem internados
Em outra frente, médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e profissionais de saúde seguem prestando assistência aos feridos no incêndio e familiares das vítimas. Dos 145 pacientes hospitalizadas após a tragédia, 22 permaneciam em hospitais até a noite de terça-feira (26), de acordo com o Ministério da Saúde. Cinco morreram e 118 receberam alta.
Vítima do incêndio na boate Kiss chega a Porto Alegre de helicóptero para receber tratamento neste domingo (27) (Foto: Camila Domingues/Reuters)Feridos graves foram levados a Porto Alegre em
aeronaves (Foto: Camila Domingues/Reuters)
Dos que permanecem sob cuidados, 18 pacientes estão em hospitais de Porto Alegre e quatro em Santa Maria. Três deles ainda precisam de ventilação mecânica, isto é, dependiam de aparelhos para respirar. Segundo o coordenador de Média e Alta Complexidade do Ministério da Saúde, José Eduardo Fogolin, esses pacientes chegaram aos hospitais em condições muito graves e ainda inspiram cuidados, mas a maioria já está fora de perigo.
“O principal comprometimento de alguns hoje é clínico múltiplo. Isso inclui comprometimento respiratório, circulatório, metabólico, insuficiência renal, entre outros”, diz Fogolin.
Um dos responsáveis pelo atendimento no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que acolheu alguns dos casos mais graves, o médico pneumologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Hugo Goulart de Olveira, diz que os sete pacientes internados na instituição já respiram sem auxílio de aparelhos.
“A parte pulmonar e das vias aéreas teve uma evolução muito boa, mas várias pacientes ainda apresentam sequelas como queimaduras no rosto, tronco e membros. Alguns já passaram por várias cirurgias reparadoras. Outros tiveram membros amputados. O foco agora é tratar desses problemas”, diz o chefe da unidade de endoscopia respiratória do Clínicas, que também é major da Brigada Militar.
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Gustavo Riet, 34 anos, teve alta após ser hospitalizado devido ao incêndio na boate Kiss (Foto: Gustavo Riet/Arquivo Pessoal)Vítimas da Kiss que tiveram alta terão de
hospitais terão acompanhamento permanente
(Foto: Gustavo Riet/Arquivo Pessoal)
Outra preocupação das autoridades de saúde é com problemas futuros que as pessoas que inalaram a fumaça tóxica durante o incêndio possam apresentar. São doenças como a bronquiolite, que, a grosso modo, é a obstrução das canais que levam o ar até os alvéolos pulmonares. Por isso, o Ministério da Saúde pretende adotar um acompanhamento prolongado de todos os pacientes.
“Nesse momento, começa a fase de acompanhamento das vítimas. Os que tiveram alta dos hospitais serão monitorados por um longo período, de até cinco anos. Vai depender de cada caso, de acordo com o protocolo a ser estabelecido”, diz Fogolin.
A terceira etapa da estratégia de saúde também prevê o atendimento psicossocial para familiares, amigos, vítimas e profissionais envolvidos no atendimento e socorro. O serviço de acolhimento 24h no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), de Santa Maria, será mantido por mais seis meses. A ação também prevê a expansão da rede de atenção e a contratação e qualificação de profissionais da área de saúde mental para atendimento domiciliar.

Presente em Santa Maria no primeiro dia da tragédia, ao lado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, Fogolin comemora os resultados obtidos até o momento no tratamento dos feridos. Segundo ele, a taxa de recuperação dos feridos é de 92%. Número que só foi possível graças a rapidez no socorro e qualidade do atendimento.

"O atendimento desde a porta da boate até as transferências e transportes para hospitalização teve muita qualidade. A triagem dos casos mais graves foi fundamental para isso. Além disso, o ministério e a Secretaria Estadual de Saúde fizeram o possível para salver vidas. Todos os recursos necessidades que os especialistas solicitaram, como respiradores artificiais e o antídoto contra a fumaça, foram disponibilizados", conclui.

Tragédia causou aumento na fiscalização e promessas de lei
Se teve algum aspecto positivo, a tragédia na Kiss motivou uma onda de fiscalizações e fechamento de casas noturnas e boates por todo o país. Centenas foram interdidatas, de Norte a Sul. As autoridades passaram a redobrar os cuidados, exigindo documentos e a adoção de algumas medidas que antes já eram obrigatórias, mas que não recebiam a atenção necessária.
Força-tarefa da Smic fará fiscalização de casas noturnas de Porto Alegre (Foto: Leonardo Ferreira/RBS TV)Fiscalizações passaram a ser mais rigorosas em
boates (Foto: Leonardo Ferreira/RBS TV)
Em Santa Maria, três dias após a tragédia, um decreto foi assinado pelo prefeito Cezar Schirmer determinando o fechamento de bares e casas noturnas por 30 dias. Os locais só foram reabertos quando os proprietários apresentaram alvará de localização, de vigilância sanitária e de combate e prevenção a incêndio. A prefeitura também intensificou fiscalizações, com órgãos competentes visitando casas noturnas, exigindo documentação e fechando estabelecimentos irregulares.
Uma Comissão Externa da Câmara dos Deputados foi criada para acompanhar a apuração dos fatos relacionados ao incêndio na Kiss. Logo no primeiro encontro, parlamentares discutiram normas de prevenção de incêndios que sirvam para qualquer tipo de local com aglomeração de pessoas. Alguns deles estiveram em Santa Maria para acompanhar os desdobramentos da tragédia.
O grupo, formado por dez deputados, definiu o prazo de 120 dias para apresentar um relatório com sugestões de aperfeiçoamento da legislação federal e com o acompanhamento das investigações da tragédia. O relatório da comissão deverá apontar para uma legislação federal que inclua, por exemplo, a padronização de saídas de emergência, plano de evacuação e treinamento da equipe dos estabelecimentos.
Em Porto Alegre, o rigor com casas noturnas também aumentou. A prefeitura deu um prazo de 15 dias para que os estabelecimentos entregassem alvará de prevenção contra incêndio expedido pelo Corpo de Bombeiros. Até a noite de terça-feira (26), 13 casas noturnas haviam sido fechadas por causa de irregularidades. Um grupo de trabalho foi formado para intensificar e ampliar a fiscalização dos bares noturnos na capital gaúcha. O objetivo é, a médio e longo prazo, fazer os ajustes necessários para aperfeiçoar a legislação sobre normas de segurança.
A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul também criou duas comissões parlamentares relacionadas ao incêndio. Uma Comissão de Representação Externa foi designada para acompanhar as investigações. Também foi aprovado o pedido prevendo a instalação de uma comissão especial para analisar as legislações estadual e municipais sobre segurança contra incêndio em prédios comerciais, industriais e residenciais.
Na segunda-feira (26), foi realizada a primeira audiência pública sobre o tema no Legislativo gaúcho. Engenheiro de formação, o deputado Adão Villaverde vai presidir a Comissão Especial de Revisão e Atualização da Legislação de Segurança, Prevenção e Proteção contra Incêndios. Segundo ele, após a discussão com especialistas na área, uma lei mais rígida deve ser elaborada e votada em plenário até junho deste ano.

Um mês depois, Santa Maria tenta voltar à normalidade
Embora a lembrança das vítimas ainda cause comoção um mês após a tragédia, aos poucos Santa Maria tenta retomar a rotina. O movimento no centro da cidade durante o dia voltou a ser intenso, o que não se via nos dias de luto subsequentes ao incêndio. Muitas lojas que fecharam em sinal de luto funcionam normalmente e o comércio começa a se recuperar. Apesar de ainda aparecer em rodas de conversa, o assunto da boate Kiss não é mais o tema dominante da cidade.
Rafaela acredita que o movimento à noite começou a aumentar  (Foto: Felipe Truda/G1)Rafaela acredita que vida noturna de Santa Maria
está se recuperando  (Foto: Felipe Truda/G1)
Um dos principais pontos do centro da cidade, a Praça Saldanha Marinho aos poucos volta à normalidade. “O movimento está retomando. As pessoas estão buscando mais a praça e sorrindo mais. No começo, foi triste”, diz o porteiro Tiago dos Santos, de 29 anos. O representante comercial Franque de Freitas, de 25 anos, tem a mesma impressão. “Essa semana percebi uma mudança. O pessoal está saindo e se divertindo mais”, conta.
Já a estudante de enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Bruna Zanon, de 22 anos, discorda. Para ela, a tragédia na Kiss ainda é muito recente. “Vai demorar muito para mudar. O pessoal continua triste. Na universidade, lembramos de tudo o que aconteceu. É complicado. Ficamos pensando no quanto somos vulneráveis”, conta.
Moradora de Nova Palma, ela vai à cidade frequentemente para estudar. Mesmo assim, foi visitar o prédio onde funcionava a boate, na Rua dos Andradas, pela primeira vez apenas na terça-feira, um dia antes da tragédia completar o primeiro mês. “Cheguei a passar de ônibus aqui, na semana seguinte, e o cobrador começou a chorar”, lembra ela.
À noite, percebe-se uma mudança maior. A fachada de uma concessionária na Avenida Presidente Vargas, no Centro de Santa Maria, costumava ser um ponto de encontro dos jovens na cidade. Os poucos frequentadores que vão ao local agora contam que, mesmo em finais de semana, o movimento caiu muito após a tragédia. Agora já é possível ver alguns jovens no local. “Demorou uns 15 dias para o pessoal voltar a sair”, diz a estudante Rafaela Hoffmann, de 18 anos.
Calil vê mais movimento na loja de conveniências com fechamento das boates (Foto: Felipe Truda/G1)Aos poucos, Calil recupera fregueses na loja
de conveniências (Foto: Felipe Truda/G1)
Os carros com som alto que costumavam ficar estacionados em frente à loja de conveniências na Avenida Fernando Ferrari, cheios de jovens, não estão mais lá. Mas o movimento no estabelecimento  do empresário Paulo Calil, de 37 anos, começou a aumentar nos últimos dias. “Durante uns 20 dias, o movimento caiu entre 70% e 90%. Começou a aumentar na semana passada, entre quinta e sexta-feira. Aí começou a chegar mais gente que antes, até porque com as boates fechadas a conveniência vira a única opção”, explica.
Se o negócio voltou a prosperar para Calil, quem vive da noite ainda tem  prejuízo. É o caso do músico Thiago Tampa, de 31 anos. “Eu tinha oito trabalhos marcados para fevereiro, fiquei com apenas um. Entendo que o fato foi surreal, mas me prejudicou”, diz o músico.
A expectativa para o próximo final de semana, o primeiro após o fim do período de luto oficial de 30 dias decretado pela prefeitura, é que as oportunidades voltem a aparecer para quem ganha a vida com a diversão noturna. Porém, Tampa teme que mesmo com a liberação das festas, o clima continue sendo de luto. “É uma incógnita. Ninguém sabe se o pessoal vai levar para o lado do ‘não façam festas’. Não há como respondermos isso, porque teve muita gente envolvida, e todo mundo perdeu alguém”, constata.
* Coloboraram Gabriel Cardoso e Márcio Luiz
- O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso.Entenda
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, deixou 239 mortos na madrugada de domingo, dia 27 de janeiro. O fogo teve início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento por investigadores:
- Era comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio não funcionou.
- Havia mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros estava vencido.
- Mais de 180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram asfixia mecânica.
Equipamentos de gravação estavam no conserto.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Jovem que usou freezer para escapar de incêndio em boate recebe alta


Depois de dez dias internada no Hospital Conceição, em Porto Alegre, Ingrid Goldani, a barman que se salvou da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, após respirar dentro de um freezer, recebeu alta nesta quarta-feira (6). Feliz com a notícia, a jovem de 20 anos criou um evento no Facebook  para marcar a data em sua linha do tempo. "Foi uma sensação muito boa. Só quero ficar bem agarradinha com quem me quer bem", contou ao G1.


A estudante de enfermagem revelou que as aulas só iniciam no dia 25 de fevereiro. Até lá, pretende voltar à cidade natal, Santa Maria, e encontrar as pessoas que torceram por ela. Durante o incêndio que resultou na morte de 238 pessoas, Ingrid contou que o único local com oxigênio "limpo" que encontrou foi o freezer. Ela puxou fôlego no eletrodoméstico antes de pular o balcão do bar para fugir da boate Kiss. A vantagem de conhecer a casa noturna a ajudou.
 
Pais de Ingrid comemoram a saída da filha da CTI no hospital (Foto: Caco Konzen/Ag. RBS/Folhapress)Pais de Ingrid mostram uma foto da filha ainda no
hospital (Foto: Caco Konzen/Ag. RBS/Folhapress)
"Agradeço do fundo do meu coração, mesmo despedaçado, todo amor, paz, orações, carinho, força, fé e amizade que foi mandado por todos. Fez  toda a diferença saber que tinha tanta gente torcendo por mim, querendo minha recuperação, esperando eu sair dessa. Eu só queria dizer que deu certo", escreveu Ingrid em sua rede social.
Do quarto do hospital, Ingrid foi levada pela família para a casa de uma tia em Porto Alegre, no bairro Partenon. Agora aguarda a alta da mãe, que foi internada para realizar um procedimento cirúrgico no intestino. "Ela teve uma inflamação no intestino por conta do nervosismo que passou, mas a previsão é de alta amanhã", disse.
Abalada com as notícias e com a perda de amigos, a estudante ressaltou que ainda não tem planos para o futuro. "Sinceramente, eu ainda não sei o que vou fazer. Estou com uma necessidade de ficar ao lado de quem sobreviveu", emocionou-se.
Um comunicado oficial da Secretaria Estadual da Saúde informou na tarde desta quarta que diminuiu para 75 o número de feridos que seguem internados em hospitais do Rio Grande do Sul.
Entenda
- O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso.O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no dia 27 de janeiro, deixou 238 mortos. O fogo teve início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento por investigadores:
- Era comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio não funcionou.
- Havia mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros estava vencido.
- Mais de 180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram asfixia mecânica.
Equipamentos de gravação estavam no conserto.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Santa Maria RS - Escombros serão removidos para buscar a origem do fogo


Peritos do Instituto Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul retomaram os trabalhos na manhã desta terça-feira (5) na boate Kiss, em Santa Maria. O foco da investigação é achar o ponto exato onde o incêndio começou na madrugada do dia 27 de janeiro. A tragédia na boate matou 237 pessoas.
Soldados levam gerador para dentro da boate Kiss (Foto: Felipe Truda/G1)Soldados levam gerador para dentro da boate Kiss
(Foto: Felipe Truda/G1)
Quatro profissionais do IGP, acompanhados de um policial militar, entraram no prédio por volta das 7h35. Eles retiraram alguns cartazes que estavam na porta para acessar o prédio. A equipe removerá escombros em busca de sinais que apontem a origem das chamas. Às 8h15, uma Kombi do Exército com um gerador chegou ao local para auxiliar nos trabalhos.
Peritos já haviam trabalhado no prédio da boate durante a semana passada. Na última sexta-feira (1), foram mais de 10 horas de inspeção no local. Na saída, eles levaram pedaços da espuma que revestia o teto e que foi a causadora da fumaça preta e tóxica que matou a maioria das vítimas asfixiadas. O material foi comprado em uma loja de colchões de Santa Maria.
No domingo (3), o IGP recebeu uma amostra da espuma para a realização de testes. Os resultados serão encaminhados à policia, segundo o delegado regional Marcelo Arigony.
"Fizemos várias reconstituições, mas o IGP ainda vai fazer a reconstituição oficial", disse Arigony.
Entenda
- O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso.O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, deixou 237 mortos na madrugada do último domingo (27). O fogo teve início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento por investigadores:
- Era comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio não funcionou.
- Havia mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros estava vencido.
- Mais de 180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram asfixia mecânica.
Equipamentos de gravação estavam no conserto.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Em luto, UFSM retoma aulas e monta centro para atender estudantes



Após uma semana de luto e aulas suspensas em razão da tragédia na boate Kiss, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) retoma as atividades nesta segunda-feira (4) com uma série de medidas para receber os estudantes. Entre as 237 vítimas, 115 eram alunos ou ex-alunos da instituição. Outros estudantes estavam na boate na madrugada do último domingo (27) estão internados em hospitais de Santa Maria e de Porto Alegre.

Durante a semana em que ficou fechada, reitoria, professores, estudantes e servidores discutiram ações para que o recomeço das aulas seja menos traumático possível. O trabalho será focado no apoio psicossocial aos alunos que precisam.
Amigos e familiares seguem com as homenagens às vítimas do incêndio na boate Kiss (Foto: Marcio Luiz/G1)Boate Kiss virou local de peregrinação para amigos
e parentes das vítimas (Foto: Marcio Luiz/G1)
O primeiro encontro entre a comunidade acadêmica ocorrerá em um culto ecumênico em homenagem às vítimas, marcado para as 9h, no Espaço Multiuso, próximo ao prédio da reitoria. Após a celebração, os alunos seguirão para suas respectivas unidades de ensino.

Nesse mesmo espaço, estará disponível um centro de acolhimento. Uma equipe de psicólogos, psiquiatras, enfermeiros e assistentes sociais atenderão os alunos que precisam de apoio. Se necessário, eles serão encaminhados para tratamento na rede municipal de saúde mental. O coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Alex Monaiar, alerta que é fundamental que os estudantes tenham acesso a informações sobre os sintomas que podem sentir depois de vivenciar a tragédia que tirou a vida de muitos amigos.
“Tristeza, falta de sono e de fome. É importante que todos saibam que essas e outras reações são absolutamente normais nesse contexto”, afirma ele.

Além dos psicólogos da própria universidade, especialistas da Força Nacional do SUS, que foram enviados à Santa Maria para auxiliar no tratamento de feridos e apoio a familiares e amigos, estiveram no campus discutindo o assunto e repassando orientações.

Outro medida tomada foi a flexibilização das avaliações e presença em sala de aula para os alunos que não estiveram em boas condições psicológicas e emocionais. A proposta foi apresentada pelo DCE e aceita pelo reitor Felipe Müller.

“Isso se dará em comum acordo entre estudantes e docentes. Não será um ou outro que vai decidir. Eles farão isso juntos. É importante que professores e alunos se encontrem, conversem e busquem soluções para os problemas que possam surgir”, diz Monaiar.

A partir desta semana, a universidade também começa a discutir ajustes no calendário acadêmico. Em razão da greve dos professores no ano passado, o término do segundo semestre de 2012 estava previsto para o dia 2 de março. Ainda não há definição se esse prazo será mantido após os cinco dias de luto oficial decretados pela tragédia.
- O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso.O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, deixou 237 mortos na madrugada do último domingo (27). O fogo teve início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento por investigadores:
- Era comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio não funcionou.
- Havia mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros estava vencido.
- Mais de 180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram asfixia mecânica.
Equipamentos de gravação estavam no conserto.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Notícias - Jovem morto em incêndio na Kiss será velado em Santa Cruz do Sul, RS


O corpo de Matheus Rafael Raschen, de 20 anos, será velado a partir das 8h desta sexta-feira (1) em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. Ele teve a morte confirmada na noite de quinta-feira (31) e é a vítima número 236 do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, ocorrido no último domingo (27). De acordo com informações do pai, o jovem teve uma parada cardíaca.

Matheus estudava tecnologia dos alimentos na Universidade Federal de Santa Maria e estava internado em estado grave no Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre após inalar muita fumaça na boate. O jovem era natural de Santa Cruz do Sul (RS).

O velório será realizado no Clube Corinthians, onde Matheus jogava basquete. Segundo site da Confederação Brasileira de Basketball, ele chegou a jogar pela seleção brasileira sub-18 e participou da Copa América da categoria, em 2010.

Conforme o último levantamento, 71 feridos no incêndio seguem em estado grave sendo tratados na UTI. Até a noite de quinta-feira (31), eram 127 os internados em hospitais do estado.

Entenda
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, deixou 236 mortos na madrugada do último domingo (27). O fogo teve início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento por investigadores, é possível afirmar que:

- O vocalista segurou um artefato pirotécnico aceso.
- Era comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio não funcionou.
- Havia mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros estava vencido.
- Mais de 180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram asfixia mecânica.
- Equipamentos de gravação estavam no conserto.


Fonte: Globo.com/Rio Grande do Sul

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ciclistas fazem 'pedalada' em memória às vítimas de incêndio



Enquanto tentam retomar a rotina, os moradores de Santa Maria não param de homenagear as vítimas do incêndio na boate Kiss. No final da tarde de terça-feira (29), um grupo de ciclistas promoveu uma pedalada pelas ruas da cidade vestidos de branco.
O ato foi organizado pelo Facebook. O grupo partiu do bairro Camobi e foi recebendo mais pessoas ao longo do trajeto até chegar à Rua dos Andradas, no centro da cidade, onde fica a casa noturna. No local, os ciclistas formaram um círculo e fizeram uma oração.
“Nosso grupo faz essa pedalada periodicamente. Vários componentes apresentaram a proposta dessa homenagem e a maioria aceitou. É uma maneira de lembrá-los”, disse Leonardo Severo da Costa, mestrando na Universidade Federal de Santa Maria e que conhecia alguns dos mortos.
Ainda isolada pela Brigada Militar, a boate Kiss se transformou em uma espécie de memorial improvisado. Flores são deixadas na calçada e cartazes com fotos e frases dos mortos são pendurados na fachada. A qualquer hora do dia, o movimento é grande. São pessoas que vão ali prestar o seu tributo ou curiosos que param para ver o local da tragédia.
Também na tarde desta terça, outras informações importantes sobre o caso foram divulgadas:
1- Segundo a polícia, a banda Gurizada Fandangueira utilizou um sinalizador mais barato, impróprio para ambientes fechados;
2- há diversos indicativos de que a boate não deveria estar funcionando;
3- a Prefeitura de Santa Maria se eximiu de responsabilidade pelo incêndio;
4- o chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gerson Pereira, recebeu uma ligação do governo do Estado e disse que foi "orientado a não falar com a imprensa".
5-  empresa entrega o gravador e diz que não foram feitas imagens do incêndio.

Boate Kiss desrespeitou artigos de leis estadual e municipal


A boate Kiss desrespeitou pelo menos dois artigos de leis estadual e municipal no que diz respeito ao plano de prevenção contra incêndio. Tanto a legislação do Rio Grande do Sul quanto a de Santa Maria listam exigências não cumpridas pela casa noturna, como a instalação de uma segunda porta, de emergência. A boate situada na Rua dos Andradas tinha apenas uma, por onde o público entrava e saía. No domingo (27), o incêndio durante uma festa universitária deixou 235 mortos.
Fachada da boate Kiss, em Santa Maria (Foto: Tatiana Lopes/G1)Fachada da boate Kiss, em Santa Maria, cenário
da tragédia que matou 235 pessoas
(Foto: Tatiana Lopes/G1)
Outra medida que não foi cumprida na estrutura da boate diz respeito ao tipo de revestimento utilizado como isolamento acústico, que foi onde, segundo testemunhas, o incêndio começou. A perícia ainda não informou o tipo de material utilizado, mas relatos de sobreviventes apontam que a espuma usada pegou fogo muito rápido.
A Lei Municipal 3301/91, datada de 22 de janeiro de 1991, diz, no artigo 17: “É vedado o emprego de material de fácil combustão e/ou que desprenda gases tóxicos em caso de incêndio, em divisórias, revestimento e acabamentos” em “estabelecimentos de reunião de público, cinemas, teatros, boates e assemelhados”. 
Em relação às portas, a legislação estadual determina claramente a exigência ao menos de duas portas de entrada e saída em estabelecimentos públicos. Em nota na noite de terça-feira (29), a Brigada Militar afirmou que a boate entregou laudo afirmando ter duas saídas de emergência.
O decreto nº 38.273, de 9 de março de 1998, altera as Normas Técnicas de Prevenção de Incêndios, aprovada em 29 de abril de 1997. Ele diz que “as saídas de emergência são obrigatórias nas edificações previstas na NBR 9.077, da ABNT, e deverão obedecer às regras ali previstas”. A norma citada da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) considera obrigatória a existência de uma segunda saída, a porta de emergência.
O texto da lei municipal não deixa claro se casas noturnas devem ter mais de uma saída, a não ser pelo termo no plural no artigo 18, que descreve os tipos de materiais a serem empregados: “As portas resistentes ao fogo deverão possuir o selo de marca da ABNT e serão dentro das seguintes especificações: I – porta P-60, para acesso às saídas ou escadas de emergência com antecâmara, devendo, neste caso, a antecâmara ter duas P-60; II – porta P-90, para acesso direto à saída ou escada de emergência fazer-se através de uma única P-90, como nas escadas enclausuradas sem antecâmaras”.
O promotor de Justiça aposentado e professor universitário João Marcos Adede y Castro diz que a hierarquia da lei é muito clara: a federal se sobrepõe à estadual, que por sua vez se sobrepõe à municipal. No entanto, na ausência de uma regulamentação em instância superior, o município pode legislar sobre qualquer assunto. “Não havendo leis federais ou estaduais que determinem regras específicas, cada cidade pode e deve criar meios reguladores. Mas havendo tais leis, prevalece a hierarquia”, esclarece.

Para o promotor, acima de qualquer determinação jurídica, deve imperar o bom senso. “Os princípios gerais da Constituição Brasileira asseguram ao cidadão o direito à segurança e isso é o mais importante. Neste caso de Santa Maria, mesmo as autoridades dizendo que tudo estava regular, me parece evidente que um local com capacidade para quase mil pessoas necessitava de mais uma saída. Se o fogo começasse na porta, por onde as pessoas sairiam? Nenhuma legislação resiste ao bom senso”, afirma ele.

Em comunicado à imprensa nesta terça-feira (29), o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, eximiu o Executivo Municipal de responsabilidade sobre a tragédia. Ele afirmou que o processo de renovação do alvará da boate Kiss, vencido em agosto de 2012, estava em processo de renovação e que a próxima vistoria estava prevista para abril. Em nota, a prefeitura também afirma que cabia ao Corpo de Bombeiros a vistoria anual, análise e aprovação do Projeto de Prevenção contra Incêndio (PPCI) da casa noturna, bem como a fiscalização do número de freqüentadores do estabelecimento.Relator dos projetos que resultou na lei estadual anti-incêndio e nos decretos posteriores, o tenente-coronel Nelson Matter, do Corpo de Bombeiros, diz que em muitos municípios do estado os bombeiros e as prefeituras fazem vista grossa para a legislação estadual. “A regra é aplicar a lei estadual, mas muitos municípios têm leis municipais contra incêndio mais antigas, às vezes muito menos rígidas, que acabam sendo seguidas. Há muita resistência e problemas para que sejam feitas as mudanças solicitadas pelos bombeiros. É como pedir para colocar airbag em um fusca”, exemplifica o coronel.

Na reserva há cerca de dois anos depois de 35 de serviços prestados, o tenente-coronel Nelson Matter manifestou solidariedade com o colega de profissão, o major Gerson Pereira. Nesta terça-feira (29), o chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros recebeu muitas críticas ao afirmar os bombeiros não foram negligentes ao vistoriar a boate que não era “competência” da instituição verificar o tipo de revestimento acústico utilizado. “Fiquei com pena dele. Os bombeiros têm de lidar com um emaranhado de leis e sofrem pressão de todos os lados para conceder os alvarás. São prefeituras, políticos, conselhos de engenharia e arquitetura e empresários”, diz.
Também por meio de nota, a Brigada Militar afirmou que o proprietário da boate Kiss solicitou a inspeção para renovação do alvará de prevenção e proteção conta incêndio em novembro de 2012 e que o processo estava em tramitação. Nessa situação, diz o texto, “não há previsão legal para interdição imediata determinada pelo Corpo de Bombeiros, cuja competência é limitada às questões relacionadas ao sistema de prevenção de incêndio”.

A Brigada Militar também afirma que o PPCI apresentado pelo responsável técnico contratado pela boate Kiss informava que a boate tinha “duas saídas de emergência, cujas portas possuíam sentido de abertura para fora, dotadas de barras anti-pânico e devidamente sinalizadas”. Além disso, esse plano previa a lotação máxima de 691 pessoas e que a superlotação (mais de mil pessoas estavam na boate no momento do incêndio) é de responsabilidade dos proprietários.

Investigação da tragédia
O delegado regional de Santa Maria (RS), Marcelo Arigony, afirmou em entrevista coletiva na tarde desta terça-feira (29) que a banda Gurizada Fandangueira utilizou um sinalizador mais barato, próprio para ambientes abertos e que não deveria ser usado em local fechado, durante o show na boate Kiss, em Santa Maria (RS). O equipamento teria provocado o incêndio que deixou 234 mortos na madrugada de domingo (27).
O delegado Marcelo Arigony elencou uma série de elementos que contribuíram para que a tragédia ocorresse, como falhas na iluminação de emergência, espuma inadequada para recobrir a danceteria, além de extintores irregulares.
Segundo Arigony, o extintor de incêndio que estava na boate e falhou quando os seguranças tentaram apagar o fogo pode ser falsificado.“Segundo testemunhas e provas preliminares, os extintores podem ser falsos, pois não estavam funcionando, não funcionavam direito”, disse.
Incêndio e prisões
O incêndio começou por volta das 2h30 de domingo (27), durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que utilizou sinalizadores para uma espécie de show pirotécnico.
Segundo relatos de testemunhas, faíscas de um equipamento conhecido como "sputnik" atingiram a espuma do isolamento acústico, no teto da boate, dando início ao fogo, que se espalhou pelo estabelecimento em poucos minutos.
Quatro foram presos nesta segunda-feira após a tragédia: o dono da boate, Elissandro Calegaro Spohr, o sócio, Mauro Hofffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que fazia um show pirotécnico que teria dado início ao incêndio, segundo informações do delegado Sandro Meinerz, responsável pelo caso.

O advogado Mario Cipriani, que representa Mauro Hoffmann, afirmou que o cliente "não participava da administração da Kiss".
Em depoimento, Spohr afirmou à Polícia Civil que sabia que o alvará de funcionamento estava vencido, mas que já havia pedido a renovação.
Na manhã de segunda, outros dois integrantes da banda falaram sobre a tragédia. "Da minha parte, eu parei de tocar", disse o guitarrista Rodrigo Lemos Martins, de 32 anos.
Por meio dos seus advogados, a boate Kiss se pronunciou sobre a tragédia, classificando como "uma "fatalidade".
A presidente Dilma Rousseff visitou Santa Maria no domingo e decretou luto oficial de três dias. O comandante do Corpo de Bombeiros da região central do Rio Grande do Sul, tenente-coronel Moisés da Silva Fuch, disse que o alvará de funcionamento da boate estava vencido desde agosto do ano passado.
Também na tarde desta terça, outras informações importantes sobre o caso foram divulgadas:
1- Segundo a polícia, a banda Gurizada Fandangueira utilizou um sinalizador mais barato, impróprio para ambientes fechados;
2- há diversos indicativos de que a boate não deveria estar funcionando;
3- a Prefeitura de Santa Maria se eximiu de responsabilidade pelo incêndio;
4- o chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gerson Pereira, recebeu uma ligação do governo do Estado e disse que foi "orientado a não falar com a imprensa".
5-  empresa entrega o gravador e diz que não foram feitas imagens do incêndio.
Infográfico: tragédia de Santa Maria - 29/01 (Foto: Editoria de Arte/G1)

 
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